Nota da Curadoria

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De 14 a 24 de julho acontece a 2ª Mostra de Cinema dos Quilombos, totalmente online e gratuita. A mostra é um resultado parcial da pesquisa/levantamento iniciada em junho de 2020, pelo projeto Cinema dos Quilombos, em parceria com as curadoras Alessandra Brito e Maya Quilolo, sobre o cinema feito nos quilombos no Brasil. A mostra recebeu inscrições de filmes realizados em quilombos, dirigidos por realizadores quilombolas, negros e brancos aliados às lutas antirracistas no país. As inscrições para filmes continuam abertas e podem ser feitas na página da convocatória.

Em sua segunda edição a mostra conta com a curadoria coletiva junto aos quilombolas do Quilombo dos Marques, co-organizadores da atividade. O objetivo do evento é discutir questões importantes para a luta negra a partir da voz e protagonismo quilombola no cinema feito nos territórios de Quilombo. Os debates serão guiados pelos curadores quilombolas Edson Quilombola, Wiliam de Souza Franco, Maria Eunice de Souza Franco, Claudiene de S. Santos Almeida, Rosinere de Souza Franco, Dione Marques de Souza.

A iniciativa pretende contribuir para os processos de resistência dessas comunidades criando espaços de debate e visibilidade das questões trazidas pelos quilombolas a partir do cinema. A programação da mostra traz as vozes ressoadas das imagens feitas no quilombo, juntamente com as reflexões e escritas da experiência coletiva de curadoria.

Programação 14 a 24 de julho

Sessão 1: “Aqui é o nosso sossego, aqui é nossa casa, aqui é o nosso território, aqui é onde a gente quer ficar” – Maria José da Conceição

A fala de Maria José da Conceição, quilombola do Quilombo Santa Rosa dos Pretos abre os caminhos da sessão voltada para a importância dos territórios quilombolas. No filme “Quilombo Mata Cavalo” (2018) dirigido por Jurandir Amaral, os quilombolas de Mata Cavalo contam as trajetórias de luta do quilombo. Expulsos diversas vezes de seu território por grileiros, o Quilombo resistiu durante 70 anos às diversas tentativas de desapropriação até que fosse concluído o seu processo de certificação em 2009. Com a ajuda de seus guias e entidades a comunidade é um exemplo da força quilombola pela retomada das suas terras de direito e afeto. “Cumbe – memórias quilombolas” (2020), de Iorana Silva, Vivian Raqueli Silva, Nicolas Michel Silva, Jhonatan Moreira, Nicoly Silva, Antônio Martins Neto, Robert Rocha, Ednilson Oliveira, Tiana Cassiano, Amanda Nogueira e Cleomar Rocha, apresenta o olhar das crianças e jovens do Quilombo do Cumbe para o seu território. O mangue, “portal do mar” nas palavras dos quilombolas de Cumbe, é retiro de pensamento, energia e imaginação das crianças e jovens. Com imagens gravadas pelos próprios quilombolas, o filme narra o cotidiano de descobertas e pensamentos sobre os mangues, as dunas e os registros arqueológicos encontrados pelos jovens de Cumbe. “O mundo preto tem mais vida” (2019), de Sabrina Duran,  traz a narrativa de luta e pensamento dos quilombolas do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, que enfrentam há mais de 40 anos as perversidades de empreendimentos de grande impacto como a mineração e o agronegócio. A comunidade coloca em questão os conflitos entre os modos de vida do Quilombo e os “interesses do país”. “Mas que país é esse?” é o que interroga a quilombola Jucicleia, para ela “a ideia de modernidade é uma ideia de morte” que atinge o seu mundo negro, repleto de vida. A luta quilombola aparece então como vontade de afirmação da vida, porque “eles sabem que a gente é vivo, eles querem matar o único resquício de vida que ainda há”.

14/7/21 – Quarta-feira / 19h
Debate com realizadores. Mediação: Edson Quilombola e Rosinere Franco

Sessão 2: “Estiano o tino do tempo” – Seu Arlindo. 

Na sessão “Estiano o tino do tempo” abordamos a criatividade do tempo quilombola. As mãos que fazem o artesanato, a culinária e os batuques também apontam o tempo de contar as histórias dos fazeres e saberes dos antepassados. “Cofo do Rampa” (2019), de Naýra Albuquerque mostra o saber-fazer do cofo no Quilombo do Rampa, utilizado na pescaria, na cozinha e decoração típicas maranhenses. “Jacá do Quilombo” (2020) de Raimundo José e Aparecida Leite traz a feitura do Jacá, cestaria de força no saber de Modesto Santos. Em “A viagem de seu Arlindo” (2018) de Sheila Altoé, Marluce, filha de Arlindo, nos conta a história de como seu pai se preparou para a grande viagem de sua vida.

17/7/21 – Sábado / 17h
Debate com realizadores. Mediação: Alessandra Brito e Dione Marques

Sessão 3: “Uma lição de vida” – Lucicleide Santos (Neguinha) 

São as palavras de Lucicleide Santos (Neguinha) que abrem a sessão dedicada à luta, força e resistência  das mulheres quilombolas. “Senhoras do dendê” (2019), de Auzerina Baptista e Jefferson Gonçalves Correia, traz narrativas das mulheres de Sapê do Norte, no Espírito Santo, em torno do dendê e dos dendezeiros, árvores quilombolas sagradas que estão sendo extintas com a acusação de serem “plantas exógenas” ao bioma brasileiro. “Se o dendê é invasor, nós somos o que nesse Brasil?”, é o que pergunta Dona Gessi, lembrando das sementes trazidas pelos africanos escravizados que reconstruíram no Brasil “um pedaço da África”. Em “Mulher guerreira” (2015), Carlúcia de Melo Soares, diretora do filme, mostra as dificuldades e vitórias de sua vida como mulher quilombola e a sabença da superação. “Retorno de Luzia” (2019), do coletivo Ficcionalizar, é uma linda história de retorno para muitas mulheres quilombolas que saem de seus territórios em busca de trabalho e lidam com uma realidade de racismo e exploração nas grandes cidades. “Tudo que acontece na vida da gente tem um motivo”  é o que diz a personagem Luzia que retorna à casa e herança africana de seu povo, um lindo toque de Afoxé. Em “Pra se contar uma história” (2013), de Elen Linth, Lucicleide Santos, Diego Jesus, Leandro Rodrigues, Lucicleide (Neguinha) reflete sobre as belezas e dificuldades da vida no mangue no Quilombo do Iguape, bem como a relação dos quilombolas com as imagens de cinema feitas na comunidade.

20/7/21 – Terça-feira / 19h
Debate com realizadores. Mediação: Maria Eunice e Claudiene de Souza Santos

Sessão 4: “A Real força do sagrado” – Danilo Candombe

Nesta sessão apresentamos filmes que convidam, resgatam e tensionam as tradições culturais e religiosas presentes nas comunidades quilombolas e seu papel na construção da identidade, dos afetos e da união do Quilombo. No primeiro episódio da série “Candombe do Açude” (2020) de Danilo Candombe, a comunidade do Açude reflete sobre a importância e a centralidade do candombe em seu modo de vida. No contexto pandêmico os quilombolas do Quilombo do Açude, livres do assédio do turismo religioso, celebram o “tocar do tambu” como gesto de renovação dos laços de vida, afeto e religiosidade quilombola. “Tambor na Mata” (2019), de Raimundo José da Silva Leite, é um filme celebração da chegada do ano no Quilombo do Rampa, no dia 31 de dezembro os quilombolas do Quilombo do Rampa e região se reúnem para tocar os tambores, cada ano numa localidade. Este filme é o registro da festa em “Cantin de Massá” em homenagem ao tambozeiro Massá. Já o filme  “Lealdade” (2019), de Ana Stela Cunha e Milla Negrah Avelar, tensiona a reprodução de referências culturais européias no Quilombo de Damásio. O filme apresenta a controvérsia entre duas irmãs a respeito da “dança portuguesa” muito comum nas festividades juninas no Maranhão.

24/7/21 – Sábado / 17h
Debate com realizadores. Mediação: Maya Quilolo e Willian Souza Franco
Fala de Encerramento: Curadoria e produção da mostra.

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